Mostrando postagens com marcador Franz Boas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Franz Boas. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de dezembro de 2017

Franz Boas e a Antropologia Cultural Moderna


Autora: Alice Dias Lima de Santana

A aula da disciplina Antropologia II, ministrada pela docente Cecília McCallum num sábado em dezembro, teve como tema no primeiro horário o pensamento e o trabalho de Franz Boas, fundador da principal abordagem da antropologia moderna norte americana. Para terminar a discussão sobre o “pai da Antropologia Cultural”, iniciada na aula anterior, assistimos e discutimos a parte final do documentário Shackles of Tradition: Franz Boas, disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=GOvFDioPrMM

A carreira de Franz Boas começa na Sociedade Berlinense para a Antropologia, Etnologia e Pré-História, onde atuou como geógrafo. Em 1883 realizou uma expedição para a ilha de Baffin, para fazer um mapa e estudar os esquimós (os auto-denominados Inuit). Permaneceu no local um ano antes de voltar para Alemanha. Dentre seus trabalhos importantes está o material etnográfico recolhido durante o ano que conviveu com estes, que o possibilitou escrever sua primeira obra de caráter antropológico: Os esquimós centrais,

Em 1887 Boas mudou para Nova Iorque, onde sua noiva morava, e nos anos subsequentes realizou pesquisas entre os Kwakiutl e outros grupos tribais da Colúmbia Britânica, na costa norte do Pacífico. Produziu muito sobre a história, linguagem, cultura e arte dos povos da região.

Durante o documentário, a professora falou ainda sobre o Potlach, ritual observado nos Kwakiutl e outros povos da região, que consiste em os nativos juntarem todas as riquezas e destruí-las. (COMENTÁRIO DE CECILIA: Alice, esta descrição não é o suficiente. Quem juntava as riquezas, de que consistiam estas riquezas, como foi o ritual, qual o motivo da destruição, e quais as consequências?)

Quando foi morar nos Estados Unidos, Boas trabalhou como professor, foi editor de uma revista cientifica e mais tarde tornou-se professor da prestigiosa Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, além de curador das coleções antropológicas do Museu Americano de História Natural.

Na época de Boas, o ‘evolucionismo cultural’ estava inserido na Antropologia. Nesta forma de evolucionismo, acreditava-se que a Europa era o apogeu do processo evolucionário e outros povos eram selvagens, doutrina que serviu como justificativa para o domínio exercido sobre esses povos pelos europeus e elites brancas das colônias e ex-colônias. Boas criticou o evolucionismo cultural e propôs o particularismo histórico, que sustentava que cada cultura continha em si seus próprios valores e sua própria história única. Via valor intrínseco na pluralidade das práticas culturais no mundo e era profundamente cético com relação a qualquer tentativa política ou justificativa acadêmica, de interferir nessa diversidade. 

Boas estudou com professores alemães, que criticavam o evolucionismo e simpatizavam com o difusionismo*. Acreditavam no geist (espírito) especifico de cada povo, algo que era bem particular de cada cultura. Ele era herdeiro do humanismo romântico da Alemanha.

Franz Boas ainda fundou a antropologia linguística, ou seja, a linguagem como a alma do povo, a geist e as formas possíveis de pensar através da língua. Estudar outra língua era viajar e se humanizar, conhecer outra cultura e seu código linguístico. A Antropologia vai desenvolver e sofisticar essa ideia.

Boas foi um dos primeiros e principais críticos do racismo e da suposta “ciência” inspirada por isso; seus estudos de antropologia física mostraram que as características físicas associadas às diferenças raciais se alteravam dependendo do meio-ambiente. Portanto, não eram fixos. Assim, o que se denomina ‘raça’ não determina a capacidade nem o comportamento dos humanos. Nas suas pesquisas, a variação cultural foi mais expressiva do que qualquer outro valor considerado inato pelo determinismo biológico. Essa abordagem foi mais tolerante e cientificamente embasada.

Em vez da visão etnocêntrico dos evolucionistas ou o racismo dos antropólogos físicos do século 19, Boas trouxe e enfatizou o relativismo cultural.

O legado de Boas durou quatro décadas. Ele dominou a antropologia americana, pois muitos dos antropólogos americanos da geração seguinte foram alunos de Boas. A antropologia cultural proposta por Boas evoluiu em várias direções. Até hoje o seu legado continua na antropologia americana.

***********************************************

* DIFUSIONISMO - Uma escola que estudava a distribuição geográfico e a migração de traços culturais e postulavam que culturas eram mosaicos de traços com várias origens e histórias. (ERIKSEN & NIELSEN, 2007)

Bibliografia:

FRANZ BOAS. UOL Educação. Disponível em:<http://educacao.uol.com.br/biografias/franz-boas.jhtm>. Acesso em: 17 dez. 2012.

ERIKSEN, Thomas & Finn Sivert NIELSEN. 2007. História da Antropologia. Petropoles: Vozes

domingo, 13 de agosto de 2017

Biografia e Contexto Etnográfico de Franz Boas


Naturalizado norte-americano em 1887, Franz Boas iniciou sua carreira científica como geógrafo, na Sociedade Berlinense para a Antropologia, Etnologia e Pré-História. Graças a seus contatos com Adolf Bastian e Rudolf Virchow, foi iniciado na antropologia.

Um vasto material etnográfico recolhido entre esquimós possibilitou a Boas escrever sua primeira obra de caráter antropológico: Os esquimós centrais, publicada, em 1888, no Sexto relatório anual do Departamento Norte-Americano de Etnologia e reeditada em 1964, sob forma de livro, pela Editora da Universidade de Nebraska.

Em 1886 iniciou pesquisas entre os Kwakiutl e outros grupos tribais da Colúmbia Britânica, na costa norte do Pacífico. No ano seguinte fixou residência nos EUA, tornando-se editor do periódico Ciência (Science) e instrutor da Clark University desde 1888.

Em 1896 transferiu-se para a Universidade de Colúmbia e, três anos depois, alcançou o posto de professor. Ali estruturou um dos primeiros departamentos de antropologia dos EUA, iniciando antropólogos e linguistas importantes, como A. L. Kroeber, que posteriormente fundou, em 1903, um departamento na Universidade da Califórnia, e F. G. Speck, que fez o mesmo, em 1909, na Universidade da Pensilvânia.

Boas foi um dos fundadores, em 1888, da Sociedade Norte-Americana do Folclore e de sua Revista do Folclore Norte-Americano, da qual foi editor de 1908 a 1925.

Em 1898 desempenhou papel relevante na modernização da publicação O Antropólogo Norte-Americano e na fundação, em 1902, da Associação Antropológica Norte-Americana. Em 1931 presidiu a Associação Norte-Americana para o Progresso da Ciência.

Autonomia do fenômeno cultural

Na época de Boas, a antropologia era marcada pela ideia de que raça e cultura, e raça e linguagem, constituíam fenômenos interdependentes. A cultura era conceituada como resultado do pensamento racional do homem, manifesto em diferentes graus, dentro de uma escala evolucionista. Encarava-se a história cultural como processo unilinear e universal, cujas expressões peculiares a cada sociedade, em dado momento, refletiam o seu estado de desenvolvimento.

Boas criticou não o princípio da evolução do desenvolvimento histórico, que considerava válido, mas a ortogênese (modificação individual, proveniente de causa interna, que sofre um organismo vivo, sem que entre em jogo a adaptação) que dominava o pensamento científico da época.

Franz Boas mostrou que as culturas humanas não percorrem o continuum simples-complexo, pretendido pelas teorias ortogenéticas, mas que existem diferentes desenvolvimentos históricos, resultantes de diferentes processos em que intervieram inúmeros fatores e acontecimentos, culturais e não culturais.

A obra de Boas, ao estabelecer a autonomia relativa do fenômeno cultural, desvinculou-se do rígido determinismo em face do meio ambiente e das características biológicas dos componentes das diversas sociedades. Adicionando contribuição tão valiosa à causa do antirracismo, escreveu trabalhos sobre raça e sobre a situação do negro nos EUA, além de estimular pesquisas semelhantes em várias partes do mundo.

Linguística e etnologia

No campo da linguística, preocupou-se de início com a compreensão do desenvolvimento histórico das línguas e do papel por elas desempenhado na cultura e no pensamento humano.

Ao dedicar-se ao estudo das línguas ágrafas dos grupos tribais norte-americanos, rompeu com a herança histórica dos neogramáticos, utilizando uma abordagem empiricista que consistia em descrever e analisar cada língua em seus próprios termos, a partir do conceito de "forma íntima", adotado de Heymann Steinthal.

Sua preocupação em comparar a forma íntima de línguas diferentes conduziu-o aos relacionamentos linguagem-pensamento e linguagem-cultura, através dos quais tentou entender como ocorria, em diferentes sociedades, a relação entre a realidade concreta e a idealização do mundo internalizada por seus componentes.

Encarando o fenômeno linguístico como parte do fenômeno etnológico, Boas descobriu que entre as línguas indígenas americanas haviam ocorrido empréstimos léxicos, fonéticos e morfológicos, e que, portanto, as línguas se podem desenvolver tanto por convergência de diversas fontes, como por divergência, a partir de uma origem comum.

Como professor, a influência de Boas foi clara sobre muitos antropólogos e linguistas famosos, como Edward Sapir, Ruth Benedict, Margaret Mead e outros.

Franz Boas acrescentou novas dimensões à compreensão do relacionamento homem-meio-cultura-sociedade, encaminhando a integração pretendida pela moderna antropologia.

Principais Conceitos na obra de Franz Boas


Evolucionismo / Novo Método: Apesar de não ser um conceito criado por Boas, entender o que é evolucionismo é fundamental na compreensão de uma parte de sua obra. Em seu texto “As limitações do método comparativo da Antropologia”, Boas critica o método até então usada pelos evolucionistas.

O Evolucionismo, que foi impulsionado pela teoria de Darwin, buscava descobrir as leis uniformes da evolução humana. Segundo os evolucionistas, a mente humana possuiria um funcionamento uniforme, desta forma todas as sociedades humanas teriam que passar obrigatoriamente pelos mesmos estágios obrigatórios e sucessivos. Através da comparação entre os diferentes costumes dos povos, buscavam esclarecer este caminho percorrido pela evolução humana. A crítica de Boas residia na metodologia usada pelos evolucionistas. Para Boas não era possível apresentar provas de que o mesmo fenômeno cultural necessariamente se desenvolveria em todos os lugares da mesma forma. Era uma pretensão muito grande tentar analisar a evolução em todas as sociedades humanas.

Difusionismo: Também não é um conceito criado por Boas, mas semelhante ao conceito de evolucionismo, faz-se necessário entendê-lo, pois é outra teoria que dialoga com os estudos boasianos. A teoria difusionista é semelhante a teoria evolucionista, contudo seu peso explicativo reside na ideia de difusão cultural.
Diferente dos evolucionistas que acreditavam que os fenômenos culturais semelhantes haviam se desenvolvido em regiões geográficas distantes devido ao único caminho evolutivo da raça humana, os difusionistas acreditavam na existência de uma difusão de elementos culturais entre esses mesmos lugares seja através do comércio, guerras ou viagens. Certos autores difusionistas acreditavam que o Egito antigo foi o grande centro de difusão cultural, que a partir dele a civilização humana teria se irradiado por todo o globo.

Particularismo Histórico: Esta era a teoria dada por Boas como alternativa para o evolucionismo. Seu fundamento estava na ideia de que para se obter uma compreensão mais geral das culturas era necessário iniciar o estudo pelo particular. Vemos então que este método pode ser descrito como sendo empirista e diacrônico.
Para Boas, a história da civilização humana não poderia ser entendida exclusivamente através de uma necessidade psicológica que levaria a uma evolução única da mente humana. Era necessário entender primeiramente a história cultural de cada grupo, perceber suas influências internas e externas pela qual passaram para então entendê-los. Seria impossível entender a história de um povo somente se baseando em um único sistema evolucionário.

Cultura: Para Boas a cultura era o elemento explicativo da diversidade humana. No sentido norte americano, cultura se torna um conceito mais abrangente do que o conceito de sociedade. A cultura no caso seria tudo que os seres humanos criaram inclusive a sociedade. É importante frisarmos que Boas usa o termo culturas devido a sua teoria do relativismo cultural, pois segundo ele cada povo possuiria uma singularidade cultural. Diferentemente vemos o termo cultura (aqui no singular), usado pelos evolucionistas, pois segundos estes teóricos, a cultura humana seria única devido ao seu desenvolvimento unilinear. De maneira resumida, Boas entendia a cultura como a lente pela qual cada um de nós enxerga a sociedade e pela qual estaríamos presos à ela através dos grilhões da tradição.

Raça: Para Boas, o conceito de raça na verdade seria uma classificação não científica dos traços físicos superficiais que possuímos. Vemos em seus textos que Boas não faz uso do termo raça, mas do termo formas corporais. A ideia de raça na verdade era uma construção de tipos ideais locais baseados em características físicas semelhantes, sendo estes retirados de localidades comuns. Porém Boas ressalta que por mais fisicamente semelhantes um grupo de pessoas seja, haverá inúmeros indivíduos na qual esta descrição não poderia caber.

Fontes:

BOAS, Franz. Antropologia Cultural. Tradução: Celso Castro. 6ed. Rio de Janeiro, Zahar, 2010.

ERIKSEN, Thomas H. NIELSEN, Finn S. História da Antropologia. Tradução: Euclides Luiz Calloni. Petrópolis, Editora Vozes, 2007.

Trabalho de Campo - Franz Boas


Como podemos ver ao longo de nossos estudos, Franz Boas e Bronislaw Malinowiski foram os fundadores do trabalho de campo na Antropologia. Rompendo com os laços evolucionistas, estes pensadores propõem o estudo aprofundado, contínuo, baseado interação e observação direta de pequenas sociedades não ocidentais.

Franz Boas ancorou-se em um dos pontos mais importantes da etnografia: a observação participante. A partir dela surgem as anotações, os diários de campo, depoimentos, as entrevistas, os registro através de vídeo/fotografia  enfim a coleta de dados do grupo estudado. Através desses dados é que o antropólogo põe-se a 'escrever sobre a cultura em questão ou a prática cultural então observada' (lembrando Geertz, 1978).

Em outras palavras, o autor em questão acreditava que essa coleta minuciosa de dados culturais, obtidos nas pesquisas de campo, permitiria com que se tornasse possível ter um melhor conhecimento da vida dos mais variados povos. Quanto maior for o contato com os nativos maior será a chance de interpretar suas vidas (costumes, crenças) de maneira mais próxima a verdade.

Destacando o trecho seguinte, podemos entender o quanto era especial e de muita importância o envolvimento profundo com a cultura estudada, a ponto de que fosse se despindo o antropólogo de outrora e novas roupas fossem lhe cabendo, a cada detalhe incorporado.

"Eu não tinha interesse por bruxaria quando fui para a terra Zande, mas os Azande tinha; de forma que tive de me deixar guiar por eles." (Evans Pritchard, 1978).

Estudos apontam que Franz Boas  interessou-se pela Costa Noroeste dos EUA. Segundo ele, as migrações ao longo da linha costeira poderiam facilitar um “intercâmbio” cultural por difusão entre Velho e Novo Mundo.

Fontes Teóricas de Franz Boas


Em 1881, Boas concluiu seus estudos universitários com uma dissertação sobre a absorção da luz pela água. Data dessa época seu interesse pela psicofísica (desenvolvida por Gustav Fechner), disciplina que buscava compreender a relação entre sensações físicas e percepção psicológica

No entanto, insatisfeito com a carreira de físico, mudou seu interesse para a geografia, em parte por influencia do geógrafo Theobald Fischer, seu professor em Kiel e de quem se tornaria amigo.

Após prestar um ano de serviço militar obrigatório,mudou-se para Berlim, onde conheceu Adolf Bastian (1826-1905), patriarca da antropologia alemã e então diretor do Museum fur volkerkunde (museu do folclore), e por ele fundado em 1873 e ao qual boas ficou provisoria mente ligado.

Nessa época, também estudou técnicas de medições então característica da antropologia física, com o médico anatomista Rudolf Virchow (1821-1902).

Marie visitava a Alemanha em companhia de sua mãe e de um amigo da família, Abraham Jacobi, coincidentemente, tio materno de Boas que também se mudara para Nova York ( no futuro, Jacobi seria de grande importância para o sobrinho, inclusive ajudando-o financeiramente)..

Em 20 de junho de 1883, Boas partiu para sua expedição aos esquimós. Por insistência do pai, ia acompanhado por um empregado da família, Wilhelm Weike, da sua idade.

Daí partiu para um trabalho temporário como assistente de Frederick W. Putmam na seção de antropologia da World´s Columbiam Exposition, que celebrava os quatrocentos anos da chegada de Colombo à América.

Em 1896 , finalmente Boas conseguiu um emprego estável, sendo contratado para trabalhar na curadoria das coleções etnológicas do American Museum of Natural History, em Nova York. A instituição estava sedo revitalizada sob a liderança ( e com os recursos ) do milionario Morris K. Jesup. Boas convenceu Jesup a financiar uma ampla pesquisa coletiva para investigaras afinidadese reaçõesentreos povos da Asia e do Noroeste norte Americano _ que ficou conhecida como a Jesup North Pacific Expedition.