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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Resenha dos Capítulos III e XXII do texto de Malinowski: Os Argonautas do Pacífico Ocidental

Referência Bibliográfica: MALINOWSKI, Bronislaw. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultura, 1978, Capitulo III “Características Essenciais do Kula” pp. 71-85.
 
Resenha dos Capítulos III e XXII do texto: MALINOWSKI, Bronislaw Kasper. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês de origem polaca, contribuiu muito para a antropologia social. Foi o fundador da escola funcionalista. No seu livro “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, estabelece um desenvolvimento de um novo método de investigação de campo, métodos na colecta do material etnográfico, como ele traz e mostra um controle firme e claro da constituição tribal, com seriedade apresentados no capítulo III de sua obra com o nome “Características Essenciais do kula” no qual presencia pessoalmente e formular um conceito.

O capítulo da obra a ser trabalho aqui contém seis secções. Na primeira secção o autor faz uma descrição do kula, tema característico do capitulo III, vêm mostrando que o kula é um sistema de troca vasto e praticado por comunidades tribais. Examina o eixo principalmente dessa troca que são dois artigos: os longos colares feitos de conchas vermelhas, chamados soulava; e os braceletes feitos de conchas brancas, chamados mwali.

Cada artigo tem o seu próprio sentido, as comunidades têm um relacionamento intertribal, são localizadas em um amplo circulo de ilhas que formam um circulo fechado. Os artigos viajam em direções opostas e quando se encontram, são trocados cerimonialmente, aspecto fundamental do kula que também, ligado a ele são encontrados atividades de troca secundárias que são bens essenciais à sua economia.

Num parágrafo do texto, autor resumir em poucas palavras:

O kula é, portanto, uma instituição enorme e extraordinariamente complexa, não só em extensão geográfica mas também na multiplicidade de seus objectivos. Ele vincula um grande número de tribos e abarca em enorme conjunto de atividades inter-relacionadas e interdependentes de modo a formar um todo orgânico” (MALINOWSKI, 1978, p. 71-2).

A partir do parágrafo acima, retirado da obra, mostra que o kula se firma em uma parceria de cada tribo que acaba sendo interdependente de outra tribo, em outras palavras, as necessidades são supridas, o que uma comunidade necessita, a outra dá e recebe em troca algo que também necessita na sua. Todo esse mecanismo é indispensável à economia desse circulo fechado e gerando créditos entre os parceiros através de grau de confiança, honra e moral. Essa instituição intertribal estabelecida que é o kula, que sua força central é a troca de dois principais objetos de transação, os vaygu’a, o soulava (longos colares feitos de conchas vermelhas) e o mwali (braceletes feitos de conchas brancas). Esse contexto cabe a segunda seção.

Esses dois objectos principais do kula são usados em grandes reuniões, inclusive nas danças cerimoniais. Os nativos não têm ambição de posse, a exemplo, se um líder tiver vários colares e alguns braceletes e independente onde seja o evento se ele não puder comparecer simplesmente qualquer outro nativo conhecido, como parentes, filhos, amigo e até seu subordinado poderiam usar seus enfeites principais e ir ao evento.

Numa visão mais ampliada o autor definiu esses artigos do kula:

Numa visão mais larga, feita agora sob o ponto de vista etnológico, podemos classificar os artigos preciosos do kula entre os diversos objetos “cerimoniais” que representam riqueza: enormes armas esculpidas e decoradas; implementos de pedra; artigos para uso doméstico e industrial, ricamente ornamentados e incômodos demais para serem usados normalmente. (MALINOWSKI, 1978, p. 76).

Os nativos, parceiros do kula, trocam esse vaygu’a (principais objetos) e sobrevém a trocar outros presentes que são as atividades secundárias. Gerando essa parceria de troca que anima a relação fortalecida através de prestação de serviços onde todas as aldeias têm lugar estável, como já foi dito aqui, os artigos viajam de direção oposta, ou seja, esses objetos se encontram em constante movimentação porque o sistema determina que os braceletes nunca sejam fornecidos ao nativo pelo mesmo indivíduo e ninguém conserva os vaygu’a, os objetos principais de troca tem um tempo determinado de posse. Se o indivíduo desrespeitar, ele será dito como “mesquinho” e poderá ser excluído desse sistema de troca.

Participar desse sistema tem uma grande importância para os nativos, nesses encontros cerimoniais, há muitas conversas importantes como, por exemplo: histórias de antigos chefes no kula, sem falar na festividade das cerimônias, tradição. Apesar do uso transitório, os nativos sentem-se especiais ao usarem, de terem em mãos.

Nessas cerimônias do kula, quando um nativo recebe uma doação eventual de um indivíduo, esse nativo tem que dar, em um espaço de tempo, um presente de igual justo valor. Se o nativo der um presente inferior à doação dada pelo indivíduo, esse indivíduo pode não cobrar diretamente e nem tentar acentuar seu parceiro e não finalizar sua ligação. Para os nativos, quanto mais de tem mais dar, o indício de poder anda junto a generosidade que é sinal de riqueza. O nativo que tema a conduta mesquinha é desprezado.

Há atividades preliminares intimamente ligadas ao kula, como a criação de canoa para o transporte, organização de equipamentos e datas, cuja função é essencial para os nativos que acabam se fortalecendo economicamente pela ação do kula. Logo abaixo o autor fala sobre isso:

O kula consiste na série dessas expedições marítimas periódicas que vinculam os diversos grupos de ilhas e anualmente trazem, de um distrito para o outro, grande quantidade de vaygu’a e objetos de comercio subsidiário. Os objetos do comércio subsidiário são utilizados se consumidos, mas os vaygu’a – braceletes e colares – movem-se constantemente no circuito. (MALINOWSKI, 1978, p. 86).

Ficou claro que o kula é o grande responsável para realização dessa instituição enorme e que identifica através das cerimônias, os costumes, tradição e comportamento fundamental devido a localização de cada aldeia no circulo onde acontece.

Comportamento esse que o próprio nativo não sabe explicar porque está exercendo tal função, ele não consegue ter uma visão geral.

Franz Boas fala sobre em uma de suas obras:

As atividades do indivíduo são determinadas em grande medida por seu ambiente social; por sua vez, suas próprias atividades influenciam a sociedade em que ele vive, podendo nela gerar modificações de forma. […]” (BOAS, 2005, p. 47).

Mas o autor da obra referida nesta, não explicar, frisa exatamente o desenvolvimento do racionalismo dos nativos, como Stucken. Rivers conter-se da sugestão de Freud em que pública Franz Boas em sua obra: “[…] que o comportamento social do homem depende em grande medida dos primeiros hábitos que se estabeleceram antes da época em que a memória a ela conectada começou a operar; e que muitos traços considerados por assim dizer raciais ou hereditários são antes resultados da exposição precoce a certos tipos de condições sociais. A maioria desses hábitos não atinge a consciência, e portanto são dificilmente alterados. […]” (BOAS, 2005, p. 51).

Franz Boas ainda diz: “[…] É verdade que as culturas e os tipos raciais são tão distribuído, que toda área tem seu próprio tipo e sua própria cultura; mas isso não prova que um determine a forma da outra. Igualmente é verdade que toda área geográfica tem sua própria formação geológica e sua própria flora e fauna, mas as camadas geológicas não determinam diretamente as espécies de plantas e animais que ali vivem […]” (BOAS, 2005, p. 60).

Franz Boas defende o método da indução empírica, a comparação à um território restrito e bem definido, mas Boas também critica o determinismo geográfico, grande diversidade cultural em condições parecidos, fato que acontece com povos das ilhas Trobriand.

Claro que os povos das ilhas Trobrinad, como cada cultura tem seu padrão de desenvolvimento, sua lógica e interação para o crescimento. Mas segundo a obra, o determinismo geográfico é que estabelece o processo de adaptação da recepção e reação gerando hábitos nos indivíduos que moram nas tribos, estabelecendo um padrão de cultura.

Referências:

MALINOWSKI, Bronislaw. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultura, 1978, Capitulo III “Características Essenciais do Kula” pp. 71-85.

BOAS, Franz. Antropologia Cultural. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005, “Os métodos da etnologia, 1920” pp. 41-52; “Alguns problemas de metodologia nas ciências sociais, 1930” pp. 53-66.

*Resenha Argonautas do Pacífico Ocidental

A obra de Malinowski relata sua experiência entre os nativos das ilhas Trobriand e nos relata o Kula, uma prática entre as tribos que dita sobre a vida das aldeias no geral, e de cada pessoa e seus hábitos. A obra ajuda a quebrar modelos que se faziam presentes em etnografias até então, e surge com outras maneiras de estudar “o outro”.

Malinowski entende as sociedades como um organismo único, onde cada instituição social tem sua funcionalidade. Ele interroga a condição do pensamento antropológico, inova na forma de colher dados no campo, originando novos elementos e fatores de grande importância para a etnologia.

Em “Os Argonautas do Pacífico Ocidental” ele faz uso de todos os seus recursos metodológicos para analisar o Kula. O Kula pode ser considerado um sistema de trocas que transcende o aspecto económico e implica numa variedade de objectivos, contando com a questão do simbolismo, envolve várias áreas da vida social, não só a económica, não depende de uma só variável para acontecer.

Aprofundando a informação sobre o Kula, Malinowski percebe que os nativos separam as pequenas das grandes expedições. A pequena é chamada de Kula wala e a grande, de Uvalaku. A grande expedição kula é competitiva e possui uma proporção muito maior. O uvalaku difere-se do kula normal por todos os expedicionários participarem das cerimónias; todas as canoas devem ser novas ou reformadas e pintadas; e a característica mais importante é a ideia de receber e não a de dar presente é levada ao extremo. Malinowski apresenta uma série de detalhes, entre a magia da viagem por mar, seus tabus, as crenças e os encantamentos em torno da expedição Kula.

Seu trabalho ajudou a diminuir a visão passada e errada de sua época, que o nativo não possuía leis e se comportava como um selvagem. O autor almeja mostrar que o Kula é um mecanismo que possui seus significados para aquela cultura assim como a cultura ocidental possui tantos outros também, e que devemos ter olhar cuidadoso aos nossos grupos, categorizações e opiniões ao transferir nosso olhar para o outro.

domingo, 13 de agosto de 2017

O que é o Kula?

     
O kula é uma forma de troca de caráter intertribal praticadas por comunidades localizadas num extenso conjunto de ilhas do norte ao leste e extremo oriental da Nova Guiné descrito pelo antropólogo Bronislaw Malinowski. Reunindo milhares de pessoas de dezoito comunidades Massim, um arquipélago onde se inclui as ilhas trobiand.   
     
Segundo Malinowski - que documentou entre 1914 e 1918, essa prática de navegação e encontro ritual por um circuito pré-determinado por tradição - os participantes do Kula viajavam centenas de quilômetros de canoa transportando os vaigua'a (objetos de valors). Os colares de conchas vermelhas chamados soulava vinham no sentido horário desse círculo e na direção oposta (anti-horário) eram transportados os braceletes feitos de conchas brancas chamados mwali encontrando-se em dado momento para realizar o ritual da troca.            
  
Aquele que recebia un colar soulava, estava obrigado a corresponder com um bracelete mwalli e vice-versa. As condições para a participação no circuito de troca variavam de região para região. Os principais objetos de transações do Kula – os braceletes de conchas (mawli) feitos com a parte superior e extremidade delgada da concha de um grande caramujo e os colares (souvala) feitos do nácar da ostra espinhosa vermelha segundo Malinowski são muito cobiçados por todos os papua – melanésios, ambos usados como enfeites com os trajes de dança mais elaborados nas grandes ocasiões festivas, nas danças cerimoniais e nas grandes reuniões que participam os nativos de várias aldeias.       
     
Malinowski foi um dos primeiros antropólogos a propor uma interpretação teórica seguida ao trabalho de campo. Para essse autor acima do valor estético e advindo do trabalho empregado na confecção dos objetos dessa troca ritual está a oportunidade, que esta proporciona, de se estabelecer relações sociais e ganhar prestígio social. Os costumes e tradições que acompanham esta troca de presentes é cuidadosamente pré-escrito no sistema cultural das pessoas nele envolvidas, especialmente no que diz respeito as relações doador–receptor/receptor-doador. A aliança de doações implica relações de correspondência, hospitalidade, proteção e assistência mútua. Os líderes mais importantes do Kula podem ter centenas de parceiros em troca, enquanto os homens com menor status na sociedade têm geralmente uma dúzia deles, dependendo do tamanho de suas redes sociais. 


                                                  
REFERÊNCIA

MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do pacífico ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos de Nova Guiné Melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1976. 436 p. (Pensadores(os); v43)

Fontes Teóricas de Malinowski


Referências

KUPER, Adam. Antropólogos e Antropologia; tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, F.Alves, 1978. (Ciências sociais)

MALINOWSKI, Bronislaw Kasper, 1884-1942. Argonautas do Pacífico ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia / Bronislaw Malinowski; prefácio de Sir James George Frazer; traduções de Anton P.Carr e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça; revisão de Eunice Ribeiro Durham. – 2 ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)

Fazia-se aqui sentir a influência de Durkheim; e, é claro, o mais importante dos evolucionistas, Spencer, tinha reconhecido que o estudo intensivo de pequenas comunidades implicava em compromisso com a análise sincrônica de um tipo que mais tarde passou a denominar-se funcionalista. O enfoque funcionalista não era visto como algo que desalojaria as preocupações evolucionistas e difusionistas mas, outrossim, como algo que deveria ser-lhes adicionado. (pág. 19, 2º§).
[...] ainda acredito na evolução, ainda estou interessado nas origens, no processo de desenvolvimento; mas vejo cada vez naus claramente que as respostas a quaisquer evolucionárias devem conduzir de forma direta ao estudo empírico dos fatos e instituições, ao desenvolvimento passado daquilo que desejamos agora reconstituir. (pág. 20, 1º§).

Em Leipzig, decidiu diversificar seus interesses e estudou Psicologia Experimental, sob a direção de Wundt, e História Econômica, com Bücher. A importância desses dois anos em Leipzig não deve ser subestimada. Wundt, em particular, era uma influência de peso; já fora mestre de Durkheim e de Boas, e estava sumamente interessado em Antropologia [...] dizia respeito à cultura, “àqueles produtos mentais que são criados por uma comunidade de vida humana e que, portanto, são inexplicáveis em termos de mera consciência individual, uma vez que pressupõem a ação recíproca de muitos”, uma concepção que estava relacionada com a noção de “consciências coletiva” de Durkheim. Wundt era contrário a que se descrevesse o desenvolvimento de um fenômeno cultural em isolamento [...]. (pág. 22, 2º§).

Se os principais elementos do Funcionalismo podem ser discernidos em Wundt (e em muitos de seus discípulos), talvez seja ainda mais interessante notar que o primeiro estudo antropológico de Malinowski, sobre a organização da família australiana, já estava bem avançado antes de ele ter trocado Leipzig pela London School Of Economics em 1910. Na L.S.E., ele trabalhou sob a orientação de Westermack, o homem que tinha criticado de forma tão peremptória as primeiras teorias de “promiscuidade primitiva”, “casamento de grupo” etc., e defendido a primazia em termos evolucionários de família monogâmica. Mas esse era também um tema do Mestre de Leipzig; Wundt e seus discípulos estavam também interessadíssimos no material australiano – como muitos outros cientistas sociais desse tempo, é claro. Em 1912 e 1913, eram publicados importantes trabalhos sobre os aborígenes australianos, não só de Malinowski e Radcliffe-Brown, mas também da autoria de Durkheim e Freud; cada um deles, segundo parece, trabalhando na ignorância de produção dos demais. Assim, faz sentido que Malinowski tivesse sido estimulado em Leipzig a meter ombros a uma monografia sobre a família australiana e que decidisse completá-la sob a orientação de Wastermack. (págs. 22 e 23, 3º§).

A publicação em 1899, das extensas investigações desenvolvidas por Spencer e Gillen entre os aborígines australianos demonstrou definitivamente as grandes potencialidades do trabalho de campo e a importância das informações obtidas por meio de observação direta para a resolução dos problemas teóricos colocados pela antropologia. Só essa obra inspirou pelo menos três grandes trabalhos, cada um dos quais constituía uma reflexão inovadora em seu próprio campo: As formas elementares da vida religiosa, de Durkheim (1858-1917), Totem e Tabu, de Freud (1856-1939), e A família entre os aborígenes australianos, o primeiro livro de Malinowski, todos publicados em 1913. (pág. 9, 5º§).

Os primeiros trabalhos de Malinowski, assim como os de Radcliffe-Brown, acusam uma forte influência de Durkheim, que forneceu a ambos a formulação inicial dos conceitos de função e de integração funcional com os quais essa nova geração de antropólogos procurou construir um método próprio e chegar a uma nova teoria antropológica. (pág. 10, 4º§).

Da Antropologia de Gabinete à Antropologia Participante: Bronislaw Malinowski


Video criado sobre a vida do antropólogo Bronislaw Malinowski.

Trabalho de Campo na Antropologia


Trabalho de campo

Neste tópico falaremos um pouco sobre o trabalho de campo de Malinowski, destacando seus estudos em Nova Guiné. Para começar, é importate ressaltarmos que o autor teve muitas dificuldades ao chegar na região, pois não sabia quase nada dos nativos, e os brancos que habitavam no local também tinham pouquíssimas informações deles. Os primeiros cumprimentos de Malinowski com os nativos da região aconteceram em inglês pidgin, que era um inglês modificado e mais simples e que era usado como língua franca em várias regiões do Pacífico.

Depois das dificuldades iniciais, Malinowski começou a colocar em prática os princípios metodológicos que, segundo ele, eram essenciais para um trabalho de campo eficaz. Para o autor, o pesquisador deve, em primeiro lugar, possuir objetivos verdadeiramente científicos e ter conhecimento dos critérios e valores da etnografia moderna. Em segundo lugar, o pesquisador deve ter boas condições de trabalho, ou seja, viver entre os nativos, sem depender de outros brancos. E em último lugar, o pesquisador deve utilizar alguns métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência.

Para Malinowski, o etnógrafo ao fazer o trabalho de campo, deve estabelecer todos os regulamentos e leis que ditam a vida tribal, ou seja, tudo aquilo que é fixo e permanente, além de mostrar a anatomia cultural, como também descrever a constituição social. O autor destaca que o pesquisador deve passar a conhecer o ponto de vista dos nativos, bem como a relação deles com a vida, e ainda a visão que eles têm de seu mundo. Então para Malinowiski, é papel do etnógrafo estudar o homem e tudo aquilo que diz respeito a ele.

Queremos destacar agora o trabalho de campo de Malinowski com relação ao Kula, que é uma forma de troca e que tem um caráter intertribal muito grande. O Kula é praticado por comunidades que ficam num círculo grande de ilhas que formam um circuito fechado. No seu trabalho de campo, o autor pôde perceber que no Kula são utilizados dois artigos: o mwali que é um bracelete de concha e o soulava que é um colar de discos feito de conchas vermelhas e que a cerimônia de troca destes dois artigos é o aspecto central do Kula.

O autor também ressalta os princípios mais importantes e significativos do Kula. Ele diz que, em primeiro lugar, o Kula é um presente retribuído após algum tempo, através de outro presente e que isto não se trata de um escambo. Em segundo lugar, é papel do doador estabelecer a equivalência do contrapresente, que não deve ser imposta e não pode haver devoluções ou regateio na troca. Mas existem ocasiões que participantes do Kula fazem ofertas por artigos que estão em poder de um parceiro. São os chamados “presentes de solicitação”.

Queremos apresentar agora algumas atividades secundárias ao Kula que foram estudadas por Malinowiski. Podemos primeiramente destacar a construção de canoas, que tinham que ser bem feitas para poder suportar as longas viagens. Também é considerada uma atividade secundária do Kula o comércio secundário, que se tratava de viagens onde nativos levavam presentes para seus parceiros. Presentes estes que seriam de grande utilidade para aqueles que iriam receber. Em contrapartida aqueles que levavam presentes recebiam outros também úteis para si mesmos. Outra atividade secundária de grande relevância no Kula era a magia. Os nativos acreditavam em poderes mágicos. Eram feitos rituais mágicos sobre as canoas marítimas para lhes proporcionar segurança e rapidez. Também eram executados rituais mágicos para se afastar os perigos da navegação e outros para que os nativos tivessem dentro de si o desejo de sempre presentear.

Para concluirmos esta parte sobre o trabalho de campo de Malinowiski, nos convêm falar que o que mais interessava a ele no estudo do nativo era a visão que eles tinham das coisas. Ele ressalta que é preciso que o pesquisador consiga captar a realidade psicológica das coisas. Também fala que o pesquisador precisa amar aquilo que faz, tornando-se assim um genuíno profissional da verdadeira Ciência do Homem.

Referência Bibliográfica: 

Malinowiski (1884-1942). Vida e obra. Consultoria de Eunice Ribeiro Durham.

Biografia e Contexto Etnográfico de Bronislaw Malinowski

 

Bronislaw Kaspar Malinowski, nasceu em Cracóvia, Polônia, a 7 de abril de 1884. Seu pai, um professor de filologia eslava na Universidade Jagellonian e um linguista e folclorista de alguma reputação, era descendente da nobreza polonesa. Sua mãe era de uma família proprietária de terras cultivadas. Ele era frágil, muitas vezes doentio em sua infância, e, assim, em vários intervalos durante sua vida escolar e, mais tarde, na universidade, ele foi forçado a abrandar e ter tempo livre para o bem de sua saúde. Em um desses tempos livres começou a se interessar por Antropologia após a leitura do livro O Ramo Dourado, de James Frazer. Entretanto, apesar dos contratempos criados por sua saúde, ele conseguiu obter seu doutorado em Filosofia, Física e Matemática em 1908, graduando-se Sub Auspiciis Imperatoris, a mais alta honraria do Império Austro-Húngaro.
         
No ano de 1913 escreveu seu primeiro livro: A Família Entre os Aborígenes Australianos. De 1914 a 1918 realizou um importante trabalho de campo na Nova Guiné e Austrália. Ajudado por seu amigo Seligman, conseguiu fundos para a sua primeira expedição etnográfica, em 1914 quando residiu alguns meses com os Mailu, habitantes da Ilha de Tulon, no Oceano Pacífico. Fez mais duas expedições, convivendo durante dois anos com os habitantes das ilhas Trobriand, arquipélago situado a nordeste da Nova Guiné. Esse estudo dos Trobriand proporcionou a Malinowski a base de seu prestígio subsequente, e o teor pioneiro dessa investigação é destacado pela comparação com o anterior estudo Mailu. Na realidade ele inventou os métodos da moderna pesquisa de campo nas Ilhas Trobriand. Durante esse tempo Malinowski aprendeu a língua dos nativos, participou de suas cerimônias e de seu dia-a-dia. Malinowski vigorosamente enfatizou a importância de mergulhar profundamente na língua nativa. Mas talvez mais do que qualquer outro pesquisador diante dele, Malinowski adotou o valor de estudar a vida cotidiana em todos os seus aspectos mundanos. Assim, para ele, não foi suficiente simplesmente registrar o que os membros tribais diziam sobre suas crenças religiosas, práticas sexuais, costumes matrimoniais, ou as relações comerciais, mas, o que eles realmente faziam.
      
Mas, apesar de todas as contribuições e sua considerável influência científica e ramificações, Malinowski é principalmente reconhecido como o pai dessa escola da antropologia chamada Funcionalismo, que se baseia na ideia de que todas as partes da sociedade trabalham em conjunto, um conjunto integrado. Este pensamento pode ser prontamente contrastado com o estruturalismo de Durkheim e o estrutural-funcionalismo de Radcliffe Brown- cada um dos quais dá mais ênfase à sociedade como um todo, e as formas que as instituições servem para mantê-la. Malinowski, entretanto, coloca uma maior ênfase nas ações do indivíduo: como as necessidades do indivíduo eram servidas por instituições da sociedade, as práticas costumeiras e crenças, e como a psicologia desses indivíduos pode levá-los para gerar mudanças.
       
Em 1920 e em 1922, ele deu aulas na London School of Economics (Escola Econômica de Londres) durante o período letivo de verão, e em 1923 foi reconhecido como professor de Antropologia Social pela Universidade de Londres. Em 1924, assumiu o cargo de Reitor na L.S.E. Em 1927, Malinowski foi nomeado para a primeira cátedra de Antropologia da Universidade de Londres (Seligman tinha uma cátedra de Etnologia). Permaneceu na L.S.E. até 1938, quando foi aos Estados Unidos em gozo de uma licença-prêmio, para aí ser retido pela eclosão da II Guerra Mundial. Lecionou em Yale e realizou algumas pesquisas de campo, durante as férias, nos mercados camponeses do México. Morreu em New Haven, Connecticut, em Maio de 1942, aos 58 anos de idade.
           
As sete monografias de Malinowski sobre as Ilhas Trobriand foram publicadas entre 1922 e 1935. Constituem a maioria esmagadora de suas publicações durante os anos passados em Londres como professor, e o material trobriandês também forneceu o núcleo de suas conferências e cursos. Foi nessa época que ele formou o seu séquito de adeptos e seguidores, apresentando aos estudantes o fascinante Homem de Trobriand, impondo a crença em seu próprio papel de profeta de uma nova Ciência, e enviando-os pelo mundo inteiro para que realizassem estudos de campo de sua própria lavra.

Referências

Kuper, Adam. Antropólogos e Antropologia; tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro , F. Alves, 1978.
Oliveira, Pérsio Santos de. Introdução a Sociologia - Editora Ática.

Frases Clássicas da Antropologia


“Eles apenas falam da sua própria experiência quando perguntados sobre o Kula, mas não tem idéia sociológica da instituição”.

Bronislaw Malinowski em sua observação participativa sobre os  rituais do Kula.

"Sinto vergonha de ser brasileiro quando vejo o que se fez com os povos originários dessa terra, ou ainda quando lembro que o Brasil foi o último país no mundo a abolir a escravidão. Se eu fosse francês, teria vergonha do que a França fez na Argélia, na Indochina, na África. Ou seja, ser brasileiro não é especialmente vergonhoso. Ser de qualquer país é vergonhoso, porque todo país é construído em cima da destruição de povos".

Viveiros de Castro - Antropólogo brasileiro

"A crise financeira que atravessamos nos faz esquecer que na sua origem há uma profunda crise antropológica".

Papa Francisco

"Não existe cultura em que a relação extraconjugal seja desconhecida, e parece não haver nada que consiga fazê-la deixar de existir".

Regina Navarro

"Na nossa cultura, as pessoas amam o fato de estar amando, se apaixonam pela paixão. Sem perceber, idealizam o outro e projetam nele tudo o que desejam. No fim das contas, a relação não é com a pessoa real, que está do lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades".

Regina Navarro - Escritora

"O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende. E não poderá sabê-la sem ir à escola, começando por observar a matéria bruta que está lá representada".

"A educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta".

Émile Durkheim

sábado, 6 de maio de 2017

O sistema de comércio Kula na Antropologia


O sistema Kula de comércio foi descrito e analisado primeiramente por Malinowiski (considerado um dos “Pais Fundadores” da Etnografia), no livro “Os argonoutas do pacífico ocidental (1922)”, elaborado a partir de seu trabalho de campo nas Ilhas Trobriand, na Melanésia.

De acordo com Lanna:
“Ainda a partir da etnografia de Malinowski, Mauss retoma as diversas formas de dádivas trobriandesas (inicial, de fechamento, convite, de retorno etc.) interpretando-as como “formas primitivas de classificação”. Corretamente, não dá atenção à (re)classificação malinowskiana desta classificação trobriandesa. Sugere futuras pesquisas sobre o lugar do indivíduo não generoso no kula, infiel aos seus parceiros, e conclui que “o kula não passa, ele próprio, de um momento, o mais solene, de um vasto sistema de prestações e contra prestações que parece englobar a totalidade da vida econômica e civil dos trobriandeses” pois “ele concretiza e reúne muitas outras instituições” (idem, p. 83). O kula é assim um fato fundamental da vida trobriandesa, englobando não só o que Mauss chama de “vida civil e econômica” (incluindo aqui a política e a diplomacia intertribal) como também os mitos, a religião, a magia, as práticas funerárias e a moral (Mauss, 1974, p. 86). (Lanaa, 2000, p. 183).

Para Marcel Mauss: “O kula é uma espécie de grande potlatch” (Mauss, 2003, p.214). A partir do trabalho de Malinowiski, ao qual elogia, Mauss elabora sua análise do grande “sistema de comercio intertribal e intratribal” denominado kula, que se estende por todas as ilhas Trobriand.

Apesar de tratar-se de um sistema comercial, para Mauss “o comércio kula é de ordem nobre.”(Mauss, 2003, p.215), o que quer dizer que os objetos de trocados no kula possuem um valor distinto dos demais, que excede o simples valor comercial de uma moeda de troca qualquer e, por isso mesmo, possuem uma esfera de circulação restrita. Segundo Lanna:
“O kula, por exemplo, pode ser entendido como um comércio intertribal, por implicar uma troca circular que ocorre entre várias ilhas melanésias. Mas, como Malinowski mostra, ele é distinguido pelos próprios trobriandeses das trocas puramente econômicas “de mercadorias úteis”, denominadas gimwali, e que ocorrem paralelamente a ele (idem, p. 74). Mauss nota que os trobriandeses sempre foram comerciantes. Em resumo, para Mauss, como para Malinowski, as trocas podem ter um caráter mais ou menos comercial.” (Lanna, 2000, p. 182).

Nas palavras do próprio Mauss:

“Para começar, a troca dos próprios vaygu’a  enquadra-se, por ocasião do kula, em toda uma série de outras trocas extremamente variadas, que vão do regateio ao salário, da solicitação à pura cortesia, da hospitalidade completa à reticência e ao pudor.” (Mauss, 2003, p. 223-224).

Mauss também aponta para a questão dos valores e das motivações envolvidas nas trocas, entre as tribos que participam do sistema kula:
“A importância e a natureza dessas dádivas provêm da extraordinária competição que se instala entre os parceiros possíveis da expedição que chega. Eles buscam o melhor parceiro possível da tribo oposta. A questão é grave: pois a associação que se tenta criar estabelece uma espécie de clã entre os parceiros. Para escolher, portanto, é preciso seduzir, deslumbrar. Levando em conta as hierarquias, é preciso atingir o objetivo antes que os outros, ou melhor que os outros, provocar assim trocas mais abundantes das coisas ricas, que são naturalmente propriedade das pessoas mais ricas. Concorrência, rivalidade, ostentação busca de grandeza e interesses, tais são os motivos diversos que subjazem a todos esses atos.” (Mauss, 2003, p. 225).    
E, tecendo um comentário sobre o objetivo de Mauss ao analisar esses “fenômenos sociais totais” (o potlatch e o kula, dentre outros) no Ensiao sobre a Dádiva, Lanna encerra:
“... para Mauss as trocas incluem bens mais ou menos alienáveis, assim como bens economicamente úteis ou não. Elas podem incluir “serviços militares, danças, festas, gentilezas, banquetes, mulheres”; em resumo, qualquer “circulação de riquezas” (incluindo-se aqui as mulheres) é apenas um momento “de um contrato mais geral e muito mais permanente” (MAUSS, 1974, p. 65). Ou seja, o objeto do Ensaio não é a economia primitiva, mas a circulação de valores como um momento do estabelecimento do contrato social.” ). (Lanaa, 2000, p. 179)

O Significado de Kula e Potlatch na Antropologia


O Kula e o Potlatch

O Kula e o Potlatch têm uma importância fundamental para o teórico Marcel Mauss, pois estes constituem fenômenos sociais que se apresentam e tomam diferentes formas de classificação e perspectiva, tais eventos podem ser estudados por um viés cultural, social (questões hierárquicas), religioso (místico) ou até mesmo econômico. Dessa maneira, os dois podem ser entendidos como vigorosos processos de interação entre os habitantes de determinado meio social, daí advêm sua relevância.

O aspecto cultural pode ser compreendido pelo fato desse costume ser repassado de geração para geração e em cada sociedade esses fenômenos sociais apresentam suas particularidades.
            
No plano religioso, percebemos que as trocas não são motivadas exclusivamente por valores materiais, mas também por valores espirituais. Acredita-se que os objetos têm um valor subjetivo e essa subjetividade se manifestaria entre aqueles que praticam esse costume. Além da troca material ocorreria a troca entre almas.
            
No que diz respeito ao ponto social, aqui percebemos uma semelhança muito grande com o aspecto cultural destas trocas, na verdade o significado social da Kula e do Potlach se deve em grande parte ao senso cultural e religioso desses costumes, pois estes são os responsáveis pela consolidação de tais fenômenos em determinadas sociedades, fazendo com que tais fenômenos constituam verdadeiras relações sociais das mais destacadas no meio social em que elas se inserem.
            
O lado econômico da questão surge a partir do principio, defendido por alguns teóricos, que prega que a economia tem raízes na dependência do homem relativamente ao seu semelhante e à natureza que o cerca, para garantir a sua sobrevivência.

Estranhos no Exterior: Fora da varanda Bronislaw Malinowski


Vídeo sobre os estudos do antropólogo Bronislaw Malinowski. 
"Off the verandah", em tradução livre, " Fora da Varanda" é parte da série televisiva "Strangers Abroad", em tradução livre "Estranhos no Exterior," exibida nos anos 90.

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