Elaborado por: Albertina Govene e Hélder Luís
Texto apresentado na disciplina de Antropologia do Simbolico, no curso de licenciatura em Antropologia na Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique) no ano de 2015.
Pureza e Perigo de Mary Douglas
No século XIX distinguiam-se as religiões primitivas das grandes
religiões do mundo sob dois aspectos: em primeiro lugar, as religiões
primitivas seriam inspiradas pelo medo; em segundo lugar, estariam
inextricavelmente misturadas com as noções de impureza e de higiene. Nesta
obra o autor, tenta demonstrar, que os rituais de pureza e de impureza dão uma
certa unidade à nossa experiência. Longe de serem aberrações que afastam os
fiéis do fim da religião são actos essencialmente religiosos. Por meio deles,
as estruturas simbólicas são elaboradas e exibidas à luz do dia. No quadro
destas estruturas, os elementos díspares são relacionados e as experiências
díspares adquirem sentido.
As
noções de poluição inserem-se na vida social a dois níveis: um largamente
funcional, neste nível encontramos pessoas tentando influenciar o comportamento
umas das outras; o outro expressivo a ordem ideal da sociedade é mantido graças
aos perigos que ameaçam os transgressores, estas crenças são uma poderosa
linguagem de exortação mútua, a este nível chamam-se as leis da natureza em
socorro do código moral que sancionam.
A
impureza nunca é um fenómeno único isolado. Onde houver impureza, há sistema.
Ela é o subproduto de uma organização e de uma classificação da matéria, na medida
em que ordenar pressupõe repelir os elementos não apropriados. Esta
interpretação da impureza conduz-nos directamente ao domínio do simbólico. Pressentimos
assim a existência de uma relação mais evidente com os sistemas simbólicos de
pureza.
Exemplo:
A impureza é uma ideia relativa. Estes sapatos não são impuros em si mesmos,
mas é impuro pô-los sobre a mesa de jantar.
A impureza ritual
A nossa ideia de impuro é fruto do cuidado com a higiene e do
respeito pela convenção que nos são próprios. Certamente que as nossas regras
de higiene evoluem com os conhecimentos que adquirimos. Quer
sejam observadas com rigor, quer violadas, não há nada nas nossas regras de
pureza que sugira uma relação entre o impuro e o sagrado. Por isso nos sentimos
confusos quando nos apercebemos que os povos primitivos não distinguem o
sagrado do impuro. A nossa ideia do sagrado é especializada, enquanto em
algumas culturas primitivas o sagrado é uma ideia muito geral que significa
pouco mais do que proibição. É neste sentido que o universo se encontra
dividido entre as coisas e as acções que estão sujeitas a restrições e aquelas
que não o estão. As regras relativas ao sagrado destinam-se então a manter os
deuses à distância e a impureza constitui, nos dois sentidos, um perigo: através
dela o individuo pode entrar em contacto como o deus.
Exemplos
de manifestações de respeito através da poluição, entre eles o do uso dos
excrementos da vaca como agente de purificação. Nos cristãos as prescrições
relativas ao sagrado ignoram as circunstâncias materiais e os crentes julgam os
actos em função dos motivos e do estado de espírito do agente.
Quando Robertson Smith acrescentava que “distinguir o sagrado do
impuro marca um verdadeiro avanço sobre a selvajaria”. Na
mesma perspectiva Robertson Smith estava perfeitamente certo ao sublinhar que,
ao longo da sua história, os cristãos tenderam para considerar o rito no
aspecto mais formal, pelo prisma da sua eficácia. Mas, por duas vezes, as suas
suposições evolucionistas induziram-no em erro. A prática mágica, no sentido de
um rito de eficácia automática, não é um sinal de primitivismo e o contraste
que ele próprio notava entre a religião dos apóstolos e a de um Catolicismo
mais tardio deveria tê-lo esclarecido neste ponto. É igualmente falso que
apenas as religiões evoluídas tenham um conteúdo altamente moral. Acerca dos
objectivos da autora: em primeiro lugar, não esperaremos compreender o fenómeno
religioso limitando-nos a estudar as crenças em seres espirituais, mesmo que
refinemos esta fórmula. Em certos momentos da nossa pesquisa, necessitaremos
talvez de examinar todas as crenças conhecidas noutros seres: fantasmas,
antepassados, demónios e fadas.