sexta-feira, 8 de julho de 2016

Resenha: “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura.”


Resenha: “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura.”

GEERTZ, Clifford. Uma Descrição Densa: Por Uma Teoria Interpretativa da cultura. In: A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. P. 3-21.

Por: Liana Matos Araújo¹
liana.matos2@gmail.com

O livro “A Interpretação das Culturas” é um clássico na antropologia e representa um momento diferencial na história dessa ciência. Com base na compreensão e interpretação dos fenômenos sociais, Geertz apresenta logo no primeiro capítulo dessa obra o conceito de cultura a partir da semiótica. Para isso, ele destaca suas primeiras definições como ponto de partida: abordar a cultura como uma teia de significações tecida pelo próprio homem (partindo das ideias de Weber) em contraponto ao “todo complexo” da teoria estrutural funcionalista. Desta maneira, traz o estudo sobre a cultura "não como uma ciência experimental em busca e leis gerais, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado." (p.4).

Assim, para tornar esse conceito mais hermenêutico e reconhecido em sua importância, segundo ele, é preciso saber o que os cientistas fazem, ou seja, o que os praticantes da antropologia executam em sua prática profissional: a etnografia. Desta forma, esse conhecimento se torna mais completo quando tomamos a noção da prática etnográfica elaborada a partir de uma descrição densa. Essa prática se dá a partir da tentativa de "ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não como os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado." (p.7).

De acordo com Geertz, elaborar uma etnografia a partir de uma descrição densa é interpretar e elaborar uma leitura da leitura que os nativos fazem da própria cultura. A etnografia enquanto um método de pesquisa antropológica tem a função não somente de guiar o pesquisador em campo, mas também atua como um fundamento do papel do antropólogo sem a necessidade dele se tornar um objeto de estudo, um nativo. Assim, ao realizar um trabalho etnográfico, além dele proporcionar o posicionamento do pesquisador ele permite realizar uma compreensão da interpretação que os nativos têm de suas interpretações se tornando assim uma leitura de segunda e/ou terceira mão já que para ele somente o próprio nativo faz interpretação em primeira mão.

A descrição densa defendida e apresentada por ele está embasada em três características que se fundamentam em uma: ser interpretativa. Assim, a descrição densa serve para “traçar curva do discurso social: fixa-lo numa forma inspecionável.”(p.13). O antropólogo, diante deste discurso, anota e regista algo que não deixa de existir após ter acontecido se tornando assim um relato na pesquisa de campo. Em resumo: a descrição etnográfica é formada pela interpretação do discurso e o registro deste relato.

É imprescindível mencionar o quanto as abordagens teóricas de Geertz se tornaram um sinal diacrítico na história da ciência antropológica. Assim, ao estudar a antropologia e buscar entender seu escopo principal não é "responder às nossas questões mais profundas, mas colocar a nossa disposição as respostas que outros deram e assim inclui-las no registro de consultas sobre o que o homem falou. "(p.21). Entretanto, sua obra não esteve aquém de críticas e, ao mesmo tempo, pode proporcionar a superação de uma teoria com cunho etnocêntrico. Desta forma, a Interpretação das Culturas é uma obra clássica disponível aos leitores desde 1973 e aborda temas até hoje discutidos em sala de aula, congressos e na literatura antropológica: os saberes antropológicos, a cultura e a prática antropológica.

¹ Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Sergipe.

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